O maior <i>trust</i> do mundo
Sem dúvida que a Igreja Católica Romana deve ser considerada como um dos mais poderosos (senão o mais poderoso) grupo financeiro da fase de globalização do capitalismo. O seu actual tesouro resulta de uma prática contínua de acumulação da propriedade e da conversão monetária apoiadas na diplomacia e nos sistemas capitalistas laicos. Depois, os lucros obtidos são investidos em constantes e fabulosas especulações comerciais. A igreja soube adaptar-se à revolução tecnológica e aos novos mercados e dispõe de uma rede fortíssima de intermediários e de novos produtos para comercializar. A sua vocação para a mística é cada vez mais uma vaga reminiscência do passado.
Estes factos e a desfiguração que os acompanha já não podem ser escondidos da opinião pública. São demasiado evidentes. Por isso, entende-se mal uma recente insinuação do Vigário das Forças Armadas e de Segurança, D. Januário Torgal Ferreira quando, confrontado com as denúncias feitas em reportagem publicada numa revista de grande circulação, acerca do poder financeiro da igreja católica portuguesa. Declarou em resumo, o bispo castrense, que o texto era todo invenção e que a hierarquia católica não excluía a possibilidade de recorrer aos tribunais. Ora, D. Januário sabe muito bem que tudo quanto na reportagem é dito apenas peca por ficar aquém das realidades. E, também, que não é do interesse do episcopado português dar excessiva publicidade a temas que, de inicialmente polémicos, podem depois fugir ao controlo da Igreja e trazer à tona de água dados graves que a hierarquia prefere fingir ignorar.
Um caso entre outros casos
Entre o Patriarcado e o Governo socialista reina um bom entendimento. O Governo cede em todas as áreas onde a igreja reclama privilégios e, em troca, a hierarquia emudece perante os atropelos constantes do Executivo à Constituição e aos direitos sociais e humanos, ou joga com o princípio da subsidariedade para ocultar o essencial com o acessório, a floresta com a árvore. Esta desejada convergência está patente nas mais diferentes áreas, tais como a Educação, a Saúde, a Segurança Social, os códigos do Trabalho ou da Justiça, a Comunicação, etc.. E é também o caso dos projectos mistos de mudança, convergentes em zonas de ponta e de maior fôlego político, de que são exemplos as reformas em curso da organização territorial (pelo lado do Governo) e a nova remodelação da orgânica eclesial (pelo lado da Igreja). O Governo abandonou o objectivo da regionalização do território e adoptou a meta da descentralização, com nova divisão administrativa e a extinção ou a fusão de distritos, concelhos e freguesias. A igreja acompanhou essa tendência e propõe-se suprimir paróquias «não rentáveis», alterar o perfil das dioceses e dar mais força eclesial à componente laica, aproximando-a da «sociedade civil» e organizando-a na acção política, social e caritativa, através da formação de brigadas interdisciplinares de grande mobilidade e poder de resposta tecnológica. Depois, é só ajustar as peças. Lado a lado, discretamente, poder político e poder religioso caminham para a definição de «um novo país» que, tal como o «país velho» se manterá ignorante, fundamentalista e cegamente respeitador da vontade das hierarquias. A grande
meta a alcançar é reconstruir a pirâmide do poder tradicional discretamente oculto sob a capa de uma «revolução de veludo». Diz a teologia da igreja a propósito de si mesma: «O Espírito Santo fará encontrar o equilíbrio entre estas duas tendências (a pureza da fé e a sede laica de justiça social)». É uma falsa beatitude que em Portugal está cada vez mais longe de acontecer.
Sócrates e os políticos «de colarinhos de goma» nunca tiveram qualquer espécie de projecto para um país socialmente mais justo. Nunca tiveram e não tencionam vir a tê-lo. As grandes palavras com que anunciam simples intenções nunca concretizadas enredam-se próprias teias que tecem. O ordenamento territorial avança, depois recua, muda de conteúdos e patina na lama de inconfessáveis interesses. Abandona-se a proposta de regionalização que é substituída por outra, de descentralização, a qual por sua vez, não consegue manter a aparência que a torne credível. Barram-lhe o caminho montanhas de interesses contraditórios, insolúveis. Os Códigos do Trabalho e da Justiça, por muito que se maquilhem, apenas tentam manter vias abertas ao regresso da noite escura que atravessámos antes da Revolução de Abril e a que não queremos voltar. O famigerado défice público tão cedo não desaparecerá e continuará a ser pretexto para o agravamento da exploração do homem pelo Estado e pelo homem. As falências aumentam, bem como o desemprego, bem como a violência e o crime, bem como a droga, bem como os escândalos financeiros. Governo, Estado, Capitalismo e Igreja, caminham alegremente, de braço dado.
Do lado da Igreja, bem vistas as coisas, o panorama não é nada animador. Ano após ano, o tempo escoa-se sem que a famosa «sociedade civil» se afirme, os católicos praticantes se tornem legião, os templos se animem, a hierarquia rejuvenesça, os escândalos entre padres, colégios e seminários desapareçam e as profecias se cumpram.
A vigilância democrática e a luta não podem abrandar!
Estes factos e a desfiguração que os acompanha já não podem ser escondidos da opinião pública. São demasiado evidentes. Por isso, entende-se mal uma recente insinuação do Vigário das Forças Armadas e de Segurança, D. Januário Torgal Ferreira quando, confrontado com as denúncias feitas em reportagem publicada numa revista de grande circulação, acerca do poder financeiro da igreja católica portuguesa. Declarou em resumo, o bispo castrense, que o texto era todo invenção e que a hierarquia católica não excluía a possibilidade de recorrer aos tribunais. Ora, D. Januário sabe muito bem que tudo quanto na reportagem é dito apenas peca por ficar aquém das realidades. E, também, que não é do interesse do episcopado português dar excessiva publicidade a temas que, de inicialmente polémicos, podem depois fugir ao controlo da Igreja e trazer à tona de água dados graves que a hierarquia prefere fingir ignorar.
Um caso entre outros casos
Entre o Patriarcado e o Governo socialista reina um bom entendimento. O Governo cede em todas as áreas onde a igreja reclama privilégios e, em troca, a hierarquia emudece perante os atropelos constantes do Executivo à Constituição e aos direitos sociais e humanos, ou joga com o princípio da subsidariedade para ocultar o essencial com o acessório, a floresta com a árvore. Esta desejada convergência está patente nas mais diferentes áreas, tais como a Educação, a Saúde, a Segurança Social, os códigos do Trabalho ou da Justiça, a Comunicação, etc.. E é também o caso dos projectos mistos de mudança, convergentes em zonas de ponta e de maior fôlego político, de que são exemplos as reformas em curso da organização territorial (pelo lado do Governo) e a nova remodelação da orgânica eclesial (pelo lado da Igreja). O Governo abandonou o objectivo da regionalização do território e adoptou a meta da descentralização, com nova divisão administrativa e a extinção ou a fusão de distritos, concelhos e freguesias. A igreja acompanhou essa tendência e propõe-se suprimir paróquias «não rentáveis», alterar o perfil das dioceses e dar mais força eclesial à componente laica, aproximando-a da «sociedade civil» e organizando-a na acção política, social e caritativa, através da formação de brigadas interdisciplinares de grande mobilidade e poder de resposta tecnológica. Depois, é só ajustar as peças. Lado a lado, discretamente, poder político e poder religioso caminham para a definição de «um novo país» que, tal como o «país velho» se manterá ignorante, fundamentalista e cegamente respeitador da vontade das hierarquias. A grande
meta a alcançar é reconstruir a pirâmide do poder tradicional discretamente oculto sob a capa de uma «revolução de veludo». Diz a teologia da igreja a propósito de si mesma: «O Espírito Santo fará encontrar o equilíbrio entre estas duas tendências (a pureza da fé e a sede laica de justiça social)». É uma falsa beatitude que em Portugal está cada vez mais longe de acontecer.
Sócrates e os políticos «de colarinhos de goma» nunca tiveram qualquer espécie de projecto para um país socialmente mais justo. Nunca tiveram e não tencionam vir a tê-lo. As grandes palavras com que anunciam simples intenções nunca concretizadas enredam-se próprias teias que tecem. O ordenamento territorial avança, depois recua, muda de conteúdos e patina na lama de inconfessáveis interesses. Abandona-se a proposta de regionalização que é substituída por outra, de descentralização, a qual por sua vez, não consegue manter a aparência que a torne credível. Barram-lhe o caminho montanhas de interesses contraditórios, insolúveis. Os Códigos do Trabalho e da Justiça, por muito que se maquilhem, apenas tentam manter vias abertas ao regresso da noite escura que atravessámos antes da Revolução de Abril e a que não queremos voltar. O famigerado défice público tão cedo não desaparecerá e continuará a ser pretexto para o agravamento da exploração do homem pelo Estado e pelo homem. As falências aumentam, bem como o desemprego, bem como a violência e o crime, bem como a droga, bem como os escândalos financeiros. Governo, Estado, Capitalismo e Igreja, caminham alegremente, de braço dado.
Do lado da Igreja, bem vistas as coisas, o panorama não é nada animador. Ano após ano, o tempo escoa-se sem que a famosa «sociedade civil» se afirme, os católicos praticantes se tornem legião, os templos se animem, a hierarquia rejuvenesça, os escândalos entre padres, colégios e seminários desapareçam e as profecias se cumpram.
A vigilância democrática e a luta não podem abrandar!